
Livro sobre o “massacre de Corumbiara” será lançado no dia 20 de julho, em São Paulo | Foto: Divulgação
Luís Eduardo Gomes
Um dos mais violentos conflitos entre sem-terra e latifundiários. Doze mortes, mas quase ou nenhuma informação. Para sanar esta lacuna e ir além do superficial, o jornalista João Peres lança, no próximo dia 20 de julho, o livro-reportagem “Corumbiara, caso enterrado” (304 pg), pela Editora Elefante, e com fotos de Gerardo Lazzari.
As mortes resultaram de confronto entre famílias sem-terra que ocupavam a fazenda Santa Elina, no sul de Rondônia, e policiais militares que cumpriam uma reintegração de posse. Passados 20 anos, ainda discute-se se o que ocorreu foi um massacre ou a reação a uma postura violenta e intransigente por parte dos agricultores.
João Peres conta que começou a investigar o caso há quatro anos, quando trabalhava no site Rede Brasil Atuale recebeu uma sugestão de pauta sobre o tema. “Tinha surgido uma pauta para conversar com um rapaz que tinha sido condenado por esse caso e estava foragido porque considerava a pena injusta”, diz Peres. “Eram 12 mortes, mas um caso pouco conhecido”.
O foragido em questão era Claudemir Gilberto Ramos, condenado a oito anos e meio de prisão por ser considerado o líder dos sem-terra envolvidos em um conflito com policiais militares que resultou na morte de 12 pessoas – nove sem-terra, dois policiais e um jovem não identificado. Ele não tinha sido um personagem central para a primeira matéria que Peres publicou sobre o massacre, mas eles voltariam a se falar.
“No começo de 2013, Claudemir pediu que o procurassem porque ele queria se entregar”, conta Peres, explicando que, após estas conversas, decidiu ir para Rondônia buscar a opinião de outras pessoas envolvidas e tentar preencher as lacunas sobre a história.
Foram três viagens a Rondônia: no início de 2013, na metade do mesmo ano e no início de 2014. Ele conversou com sem-terra, policiais, políticos, advogados, integrantes de movimentos sociais, promotores e juiz. Revisou processos, documentos e cruzou dados. “Não havia muito material sobre Corumbiara. Eldorado de Carajás (massacre de 19 sem-terra nesta cidade paraense em 1997) tem livros, documentários, e esse caso não”, afirma Peres.
Ele acredita que a falta de um trabalho que sistematizasse o que ocorreu naquele julho de 1995 passa pelo fato de os sem-terra mortos ali não pertencerem a um movimento de projeção nacional. “O pessoal que ocupou a fazenda Santa Elina não estava ligado a nenhum movimento da reforma agrária, como o MST”, afirma.
Além de Claudemir, outro líder local, Cícero Pereira Leite Neto, foi condenado a oito anos e dois meses de prisão. Três policiais militares também foram condenados.
Peres, contudo, explica que o seu livro não traz uma conclusão definitiva sobre quem é o culpado pelo massacre. “O livro deixa para o leitor chegar a algumas conclusões. Se você procurar de um lado ou de outro, vai achar elementos para a condenção e absolvição”, diz. “Existe também, dentro de movimentos sociais, uma debate sobre se o que ocorreu foi um massacre ou uma batalha e em torno da condeção”, completa.
Ligação com a ditadura
Peres afirma que um dos aspectos que lhe chamaram a atenção na investigação sobre o massacre de Corumbiara foi o contexto de conflito social criado no norte do país devido a uma política do regime militar brasileiro.
“Durante a ditadura, houve uma política dupla: concederam muita terra para muita gente – um dos casos é a gleba Corumbiara, de 1,1 milhão de hectares – e, ao mesmo tempo, se fez uma política de atração de nordestinos em situação de pobreza para a região amazônica, para evitar que essas pessoas fossem para São Paulo e Rio de Janeiro”, afirma Peres. “Então, você encontra uma situação de pessoas muito pobres, desguarnecidas pelo estado, com fazendeiros com histórico de violência”.

Corumbiara abriga fazendas de milhares de hectares demarcadas no período da ditadura | Foto: Gerardo Lazzari
SERVIÇO:
O quê? Lançamento do Livro “Corumbiara, caso enterrado”
Onde? Ateliê do Gervásio – Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bixiga, São Paulo – SP
Quando? 20 de julho, 19h
Entrada gratuita
http://www.sul21.com.br/jornal/confronto-entre-sem-terra-e-policiais-esquecido-pela-midia-e-tema-de-livro-reportagem/Um comentário para “Confronto entre sem-terra e policiais esquecido pela mídia é tema de livro-reportagem”
- No confronto entre a polícia e o MST, ambos são vítimas. Demonizar os policiais, trabalhadores da área da segurança (que não gostam de cumprirem reintegração de posse, pergunte a qualquer policial). É o confronto de trabalhador contra trabalhador. Quem se mija (desculpem a expressão, mas é literalmente o que ocorre) com isso são os graúdos, latifundiários, que pagam ITR (imposto territorial rural) mais baixo do planeta e se dizem cumpridores das leis, mas quando outros trabalhadores (fiscais do Ministério do Trabalho e do INCRA) fiscalizam suas propriedades, são impedidos, agredidos e até mortos. A inexistência de reforma agrária no país não é culpa da polícia, mas dos governos e dos latifundiários.