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quinta-feira, 8 de março de 2012

Nota Pública contra a prisão de lideranças em Vilhena, Rondônia



NOTA PÚBLICA

Os representantes das Associações de Pequenos Agricultores, Sindicato dos Trabalhadores Rurais, Comissão Pastoral da Terra de Rondônia, e baixo assinantes, deploramos a atuação parcial da justiça na chamada Operação Gaia I, com a prisão efetuada o dia 05 de Março de 2012, contra o Presidente do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural de Vilhena  e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STTR-FETAGRO) Sr. Udo Wahlbrink , assim como Sr.  Roberto Ferreira Pinto, vereador de Chupinguaia, Diorande Dias Montalvão, agricultor da Associação Água Viva, de Chupinguaia, também detidos, e mandato de segurança contra o Sr. Pedro Arrigo, Presidente da Associação Nossa Senhora Aparecida.
Estes fatos representam uma criminalização dos pequenos agricultores, tratados como terroristas, quando em realidade vem atuando em legítima defesa denunciando roubos, incêndios criminosos de moradias e de lavouras, destruição de casas e de pontes disparos, ameaças e intimidações, e expulsões de suas posses. Sem que providências sejam tomadas.
Por este motivo, e por defender o direito dos posseiros da região diante da atuação parcial da justiça, ele estava sofrendo graves e reiteradas ameaças de morte de grupo de extermínio atuante na região, denunciadas na Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e na Ouvidoria Agrária Nacional sem que nenhuma providência das autoridades pra lhe oferecer fosse tomada.
Pelo pedimos
- A liberdade imediata sem cargos de Udo Wahlbrink e de todos os detidos na operação.
- Providências contra os acusados de atos de pistolagem, tentativas de homicídio, incêndios, furtos, ameaças e intimidações contra os grupos de posseiros.
- O respeito e regularização de posse de todos os pequenos agricultores que faz anos que moram e trabalham na terra.
- Urgência na resolução dos processos judiciais do INCRA de retomadas de terra abandonadas com Contratos de Alienação de Terras Públicas para reforma agrária.
                                                         Em Vilhena, à dia 07 de Março de 2012. 

Seguem 35 assinaturas de representantes de 11 associações de agricultores de Vilhena, Fetagro, e CPT RO.

quarta-feira, 7 de março de 2012

OEA alerta sobre o risco que correm ambientalistas e ativistas LGBT no Brasil


 
06/03/2012 - 20:48
 
Fonte: Logo-efe

Política

Washington, 6 mar (EFE).- A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), vinculada à Organização dos Estados Americanos (OEA), advertiu nesta terça-feira sobre a grave situação de risco que afeta ambientalistas e ativistas do movimento LGBT no Brasil.
Em apenas cinco dias, entre 24 e 28 de maio do ano passado, a Comissão recebeu a notificação de ameaças de morte contra 125 ativistas e líderes camponeses do Brasil, relacionados à defesa do meio ambiente, e reportou o assassinato de quatro deles, segundo o Segundo Relatório sobre a Situação das Defensoras e Defensores de Direitos Humanos publicado nesta terça-feira pela CIDH.
As principais vítimas das ameaças são ativistas que contestam o desmatamento ilegal da floresta amazônica.
A CIDH levou em conta o assassinato de José Claudio Ribeiro da Silva e de sua esposa, Maria do Espírito Santo da Silva, que participavam do Conselho Nacional de Povoações Extrativistas do Pará, ONG contrária ao desmatamento na reserva ambiental situada na cidade de Nova Ipixuna (PA).
De acordo com a informação recebida pela Comissão, o casal de ativistas foi assassinado a tiros no dia 24 de maio de 2011, perto de sua casa localizada na reserva ambiental onde viviam por mais de duas décadas ganhando a vida com a extração de castanhas-do-pará.
Há anos, os dois ativistas foram alvo de ameaças por suas denúncias contra madeireiros interessados em invadir a reserva com a intenção de cortar ilegalmente variedades de árvores de alto valor comercial para a produção de carvão vegetal para a indústria siderúrgica.
Dias depois desses assassinatos, a Comissão foi informada sobre a morte de Adelino Ramos, ativista do Movimento Camponês Corumbiara, ameaçado por denunciar o desmatamento ilegal nos estados do Acre, Amazonas e Rondônia.
A CIDH também criticou o assassinato de Gabriel Henrique Furquim, membro do Grupo Dignidade, de defesa dos direitos da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transexuais.
Durante 2008, a CIDH recebeu informações sobre o assassinato de defensores por serem testemunhas fundamentais nas investigações contra milícias armadas, e em 2007 sobre o assassinato de membros do MST e da Comissão Pastoral da Terra. EFE

Acusados de assassinarem casal de extrativistas em Nova Ipixuna são pronunciados


 
Qua, 07 de Março de 2012 14:07
Os acusados pelo assassinato do casal de extrativistas José Cláudio e Maria do Espírito Santo foram pronunciados pelo juiz da comarca de Marabá (PA) e poderão ir a júri popular. A CPT de Marabá divulgou Nota em que destaca "Nos mais de 30 anos que a CPT monitora processos de assassinatos no campo no Pará, é o primeiro caso em que os acusados de crimes contra lideranças são pronunciados antes que completasse um ano do assassinato. Um prova de que a justiça pode ser célere, quando quer". Confira o documento na íntegra:

O juiz Murilo Lemos Simão, da comarca de Marabá, pronunciou na data de ontem, os três acusados do assassinato de José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo Silva, crime ocorrido em 24 de maio de 2011, no interior do projeto de assentamento Praia Alta Piranheira, município de Nova Ipixuna no sudeste do Pará.
Os acusados José Rodrigues Moreira, Lindonjonson Silva Rocha e Alberto Lopes do Nascimento foram pronunciados pela prática de homicídio triplicamente qualificado: motivo torpe (disputa pela posse de terra), meio cruel (uma das orelhas da vítima José Cláudio foi cortada pelos pistoleiros quando ainda estava vivo) e recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa das vítimas (crime praticado mediante emboscada). Se condenados pelo tribunal do júri os acusados poderão pegar pena máxima de até 60 anos de prisão cada. Caso a defesa dos acusados não recorra da decisão do Juiz, o júri popular poderá ocorrer ainda este ano.
José Cláudio e Maria foram assassinados cerca de 6 km de sua casa quando trafegavam de moto em direção à cidade de Nova Ipixuna. Ao diminuírem a velocidade para passarem em uma ponte danificada foram surpreendidos por vários tiros disparados pelos pistoleiros Lindonjonson e Alberto. O casal morreu no local. Os pistoleiros agiram a mando de José Rodrigues, um médio fazendeiro que tinha comprado ilegalmente 144 hectares de terra no interior do Projeto de Assentamento, pelo valor de cem mil reais. José Rodrigues planejava transformar a área de floresta extrativista em uma fazenda de criação de gado de corte. Para isso, já tinha levado para o local 130 cabeças de gado.
Na área adquirida ilegalmente por José Rodrigues já residiam três famílias que aguardavam serem assentadas pelo INCRA. Meses antes do assassinato do casal as famílias foram expulsas dos lotes através de uma ação ilegal de policiais de Nova Ipixuna e o próprio José Rodrigues. José Claudio e Maria, apoiaram a volta dos posseiros aos lotes e denunciaram a ação criminosa de José Rodrigues ao INCRA, polícia civil de Marabá e Ouvidoria Agrária. Percebendo o apoio do casal às famílias e tendo seus interesses contrariados José Rodrigues decidiu mandar matar o casal.
O assassinato do casal teve grande repercussão nacional e internacional. Há mais de 20 anos que os dois desenvolviam um reconhecido trabalho de defesa da floresta existente no assentamento contra a ação criminosa de grileiros, madeireiros e carvoeiros. Por essa razão, nos últimos anos, vinham recebendo constantes ameaças de morte, sem que providências tenham sido tomadas por parte das autoridades federais e estaduais para protegê-los.
As investigações tanto da polícia civil quanto da polícia federal foram insuficientes para chegar a todos os envolvidos no crime. De acordo com as investigações dois outros proprietários tiveram participação no crime mas não foram indiciados pela polícia.
A situação de ameaças aos familiares de José Cláudio e Maria, que ainda residem no assentamento é grave. A professora Laisa, irmã de Maria do Espírito Santo e testemunha no processo, já recebeu várias ameaças e até o momento não tem proteção policial.
Nos mais de 30 anos que a CPT monitora processos de assassinatos no campo no Pará, é o primeiro caso em que os acusados de crimes contra lideranças são pronunciados antes que completasse um ano do assassinato. Um prova de que a justiça pode ser célere, quando quer.
Marabá, 06 de março de 2012.
Comissão Pastoral da Terra – CPT diocese de Marabá.

segunda-feira, 5 de março de 2012

"Justiça e merda é a mesma coisa aqui"


Nilcilene, com escolta e colete à prova de balas: “eles vão me matar”

Qua, 29 de Fevereiro de 2012 18:58. Liderança na Amazônia ganha proteção da Força Nacional, mas vive acuada com ameaças. À sua volta, madeireiros e grileiros seguem livres. (Portal Pública)
Nesse rio aqui também apareceu um morto, levou 13 dias para virem retirar o corpo. A gente espantava os urubus com uma palha. Com colete a prova de balas, chacoalhando no banco de trás da viatura da Força Nacional de Segurança, essa é a quarta vez que a produtora e líder rural Nilcilene Miguel de Lima aponta lugares onde encontrou corpos furados a bala nas estradas do sul de Lábrea, município do Amazonas. “Já teve vez que não apareceu ninguém para buscar. O povo enterrou por aí mesmo”.

É fim de tarde. A viatura tem que chegar na casa de Nilcelene antes do escurecer, onde dois policias passam a noite em vigília. Alguns quilômetros antes do destino, ela se agita ao ver uma picape azul no sentido oposto da estrada:  - É ele! É o carro do Pitbull.
‘Pitbull’ é o apelido de Vincente Horn, um dos motivos para a proteção que recebe de nove homens da Força Nacional. Ele é um dos autores da longa lista de ameaças contra a vida de Nilcilene, que já perdeu a conta de quantas vezes foi jurada de morte pelos cães de guarda de grileiros e madeireiros.
As ameaças começaram em 2009, quando ela assumiu a presidência da associação Deus Proverá, criada pelos pequenos produtores do assentamento para defender o grupo contra as invasões de terra e roubo de árvores. No ano seguinte, depois de fazer denúncias e abaixo-assinados contra os criminosos, Nilcilene foi espancada e teve sua casa queimada em um incêndio anunciado. Em maio de 2011, foi obrigada a fugir enrolada em um lençol para despistar o pistoleiro que estava de campana no seu portão. A equipe da Força Nacional foi deslocada em outubro para garantir que a líder pudesse voltar para casa e continuar denunciando os problemas da região.
Mesmo com a proteção ostensiva, as mãos de Nilcilene tremem enquanto a picape azul se aproxima e o silêncio pesa dentro da viatura. O policial na direção enrijece as costas, o copiloto engatilha seu fuzil. A estrada de terra é estreita, obrigando os carros a passar a menos de um metro de distância. Pitbull não se intimida. Ele reduz a velocidade, abre sua janela e, com um largo sorriso no rosto, acena um tchau.
Enquanto os carros se afastam, Nilcilene aponta os galões de gasolina que deslizam vazios na caçamba da picape: - Essa noite a motosserra vai comer.
A formação da quadrilha de pistoleiros
Mesmo com escolta armada na porta de sua casa, Nilcilene não dorme sem a ajuda de remédios. Ela sabe que está temporariamente a salvo de uma realidade que não mudou. A inclusão de seu nome no programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos (uma parceria entre a Secretaria Nacional de Direitos Humanos e o Ministério da Justiça) foi, até agora, a única ação do governo federal em resposta ao crime organizado que se fortalece na região.
Lábrea fica no sudoeste do Amazonas, fim da Transamazônica, na fronteira com a mata nativa. Para chegar ao sul do município, onde fica a comunidade de Nilcilene, é preciso entrar por Rondônia. É um daqueles lugares onde o estado brasileiro não chegou, solo fértil para quem vive fora da lei.
Além de não ter energia, telefone, posto de saúde ou delegacia, as cerca de 800 famílias que moram lá vivem sob o controle de uma quadrilha de pistoleiros. São mais de 15 “profissionais” que vieram de Rondônia, Mato Grosso e Bolívia. Eles ficam à disposição dos grileiros e madeireiros, que passam por cima do que (e de quem) for preciso para chegar ao ouro verde: as florestas recheadas de ipês, cedros e angelins.
A Pública colheu mais de 30 depoimentos de famílias locais sobre o modo como a quadrilha age. São relatos de agressões físicas a adultos e adolescentes, ameaças de morte, queima de casas, roubos e revistas seguidas de saque.
Os entrevistados são assentados, seringueiros e pequenos produtores rurais que têm documentos para atestar que são donos da terra. Muitos registraram ocorrências dos crimes na polícia e enviaram cartas pedindo ajuda ao governo federal, estadual, Ministério Público e Ibama. Mas nunca tiveram resposta.
A quadrilha funciona assim. Os grileiros contratam os pistoleiros para fazer o “despejo”. Primeiro, invadem a terra e avisam os agricultores que sua terra foi “comprada”. Geralmente dão um prazo para as famílias saírem, enquanto erguem cercas e porteiras. Vencido o prazo, começam a intimidação: bloqueiam as estradas de acesso e fazem rondas diárias atirando para o alto. Nessa fase, se cruzam com os produtores rurais pelo lote, fazem revistas, saqueiam o que eles carregam e até os agridem fisicamente. É nesse ponto que muitas famílias deixam suas casas por um tempo, “até baixar a poeira”. Muitas vezes, quando voltam, a casa foi queimada com tudo dentro.
Isso acontece em lotes individuais e dentro dos dois assentamentos demarcados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Já os madeireiros simplesmente entram na mata nativa, que tem que ser preservada pelos assentados e pequenos proprietários, derrubam e “puxam” as árvores pelas estradas durante a noite. Eles contratam pistoleiros para evitar reação do proprietário. Muitos produtores já estão tão intimidados pela quadrilha que assistem sem reclamar.
Para quem evoca a justiça, mostrando os títulos emitidos pelo governo, a resposta padrão é: “quem demarca terra é a minha pistola”. Ou “justiça e merda aqui é a mesma coisa”.
As famílias que ainda se apegam à terra ou às árvores, são juradas de morte. As mulheres deixam os filhos na casa de parentes e passam as noites em claro. Os homens soltam madeiras no piso para criar rotas de fuga pelo chão. Quando as ameaças sobem de tom, alguns passam noites fora de casa, ao relento. Para não serem encontrados, dormem sobre uma tábua escondida no meio da lavoura.
Do seringal à Brasília
Nilcilene já passou por todas essas etapas. Ela é graduada nas batalhas por terra da Amazônia.
Filha de um soldado da borracha, Nilce, como é chamada pelos amigos, nasceu em um seringal no Acre. Ela cresceu catando castanhas com os 14 irmãos, período em que apelidou a árvore que lhe dava leite e comida de castanheira-mãe. Aos 10 anos, sua família foi expulsa da terra e fugiu para a Bolívia. Antes de completar os 20, já com quatro filhos, Nilce perdeu o primeiro marido. Ele foi encontrado morto em um rio depois de resistir às ordens para sair de sua casa.
Ela criou os filhos sozinha e chegou ao sul de Lábrea em 2003, quando um grupo de lavradores sem terra começava a montar o acampamento onde hoje fica o assentamento Gedeão, que ela lidera. O nome oficial do assentamento é Projeto de Desenvolvimento Sustentável Gedeão – uma homenagem ao primeiro líder do grupo, assassinado em 2006.
É difícil saber quantas pessoas já morreram em conflitos no sul de Lábrea. Como muitos simplesmente desaparecem, o número é resultado de subnotificações. Desde que o assentamento foi criado, há registro de 8 assassinatos em decorrência de conflito de terra.
Um deles ocorreu duas semanas depois que Nilce fugiu de casa. Em maio de 2011, logo depois que o Ibama apreendeu motosserras durante uma vistoria no sul de Lábrea, os pistoleiros saíram em busca dos possíveis denunciantes. Os primeiros da lista eram Nilce e Adelino Ramos, conhecido como Dinho, que era líder do assentamento Curuquetê, também no sul de Lábrea.
Ela escapou porque foi avisada e fugiu. Dias depois, recebeu a ligação de Dinho: “Parceira, eu tô correndo vários perigos e você também. Cuidado”. Dinho foi assassinado com seis tiros à queima roupa no meio de uma feira no dia 27 de maio.
O assassino, um motorista de caminhões de toras do sul de Lábrea, entregou-se para a polícia três dias depois. Mas foi solto no fim do ano. Em janeiro, enquanto a reportagem da Pública estava na região, ele foi assassinado – crime imediatamente interpretado pela população local como queima de arquivo.
A morte de Dinho foi um dos fatores que levou a Secretaria de Direitos Humanos a dar proteção a Nilce. Depois de seis meses de exílio e muitos apelos da Comissão Pastoral da Terra, ela entrou no seleto time de 6 lideranças rurais em todo o país que têm escolta 24 horas pelo programa Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos. O programa recebe pressão da mídia nacional e internacional para incluir outros líderes ameaçados.
Contando com Nilce, em Lábrea estão os dois únicos líderes que têm direito a escolta 24 horas no estado do Amazonas. O outro protegido fica na sede do município, recordista de pessoas juradas de morte no estado, segundo dados da Comissão Pastoral da Terra. Há 12 registros oficiais de pessoas ameaçadas devido a conflitos da terra – mas é possível que hajam outros lavradores na mesma situação com medo de fazer denúncias.
Missão em crise
A inclusão de Nilce no programa foi fundamental para que ela pudesse voltar à sua terra e denunciar os crimes que ocorrem no sul de Lábrea. Mas, pelo menos por enquanto, os criminosos continuam atuando livremente.
Os policiais da Força Nacional não podem dar entrevistas, mas informalmente revelam o desgaste de situações rotineiras, como cruzar com caminhões sem placa carregados de madeira dirigidos por pessoas que ameaçaram Nilce. E se fazem uma pergunta importante: do que adianta dar segurança para que a líder continue denunciando crimes que o Estado não pune?
Graças às denúncias de Nilce e Dinho, dois inquéritos foram abertos em 2010. No fim daquele ano, 23 homens do sul de Lábrea tiveram mandados de prisão preventiva decretados por suspeita de extração ilegal de madeira, grilagem de terras públicas, lesões corporais e ameaça de morte. Dos 23, menos de 5 foram presos, e ainda assim por um curto período. Hoje todos estão em liberdade.
O que é mais contraditório é que essas mesmas pessoas continuam cometendo os mesmos crimes nas barbas da equipe da Força Nacional.
De madrugada, caminhões carregam toras de madeira pelas estradas do assentamento sem sequer evitar o trecho que passa a 30 metros da varanda de Nilce. Os policiais já tiraram até fotos do trânsito.
Das duas vezes que os policiais da Força tentaram trabalhar na origem do problema, perceberam que solucionar a impunidade no sul de Lábrea está bem acima das suas competências.
A primeira vez foi logo que chegaram. A equipe fez um levantamento de todos os mandados de prisão e descobriu um que ainda não estava revogado. Foi assim que os policiais prenderam “Márcio”- um dos nomes mais temidos pelos pequenos agricultores da região. Mas, ao chegar com o preso na delegacia de Extrema (Rondônia), surpreenderam-se com a manifestação de medo da polícia local. “Sangue de Cristo tem poder!”, ouviram de um dos PMs ao revelar o nome do preso. Poucas horas depois, a polícia de Rondônia não havia encontrado o mandado de prisão no sistema e o preso foi liberado.
A segunda tentativa foi uma ação flagrante: a equipe apreendeu o equipamento de um grupo de madeireiros que derrubava árvores sem licença. O motor foi levado para a estação do Ibama mais próxima, que também fica em Extrema. Mas, chegando lá, ouviram que a equipe local não poderia recebê-los. Aquela é uma estação para operações esporádicas, eles disseram. Embora os funcionários ainda estivessem lá, já tinham encerrado a ação e estavam de saída. O motor foi levado de volta aos madeireiros.
De volta à mira
As ameaças a Nilce não pararam. Chegam pela boca de amigos e vizinhos. “Tão dizendo que, quando a Força for embora, a cabeça da Nilce vai rolar”, foi a mensagem mais ouvida pela reportagem.
Ela mora com o marido, Raimundo de Oliveira, desde que sua casa foi incendiada em agosto de 2010. Não há energia ou nenhum tipo de comunicação externa, como telefone, celular ou rádio. A casa é cercada pela floresta e pela lavoura com 4 mil pés de mandioca de seu Raimundo. Nas noites fechadas, não é possível ver nada além de três metros da varanda. Se suspeitam que há alguém cercando a casa, os policiais não podem acender suas lanternas, ou viram alvo fácil.
Isso aconteceu pelo menos uma vez. “Teve uma noite, logo no começo, que os cachorros latiam muito, para tudo que era lado”, contou um dos policiais. A dupla em vigília se dividiu, cada um em uma porta, atentos para qualquer vulto que se aproximasse. “Floresta é sinistro. Você não sabe de onde o cara vem”, disse outro policial, que confessou ter sentido mais medo naquela noite do que em operações em favelas dominadas pelo tráfico.
Já em fevereiro, quatro meses depois que a equipe chegou, um homem foi flagrado se escondendo perto do portão da casa quando já estava quase escuro. Os policiais deram tiros para o alto e ele saiu correndo pela estrada.
Futuro incerto
Depois que Nilce vai para o quarto, Raimundo gosta de esticar a noite na varanda conversando com os policias. Eles pedem causos de onça, que Raimundo desfia sem pressa.
Nilce e Raimundo não sabem muito sobre o futuro. Onde e quanto vão viver depende bastante do encaminhamento que o governo vai dar às demandas de segurança do sul de Lábrea. Se a intervenção não for além do que a escolta por mais alguns meses, o casal está convencido de que não haverá futuro naquela terra. Mas ainda não sabem como reunir coragem para deixar tudo que construíram para trás.
Há momentos em que Raimundo bate o pé que não deixa sua casa. “Já sou muito velho para morrer de fome na cidade”, diz. Enquanto estava exilada, Nilce não cansava de repetir que preferia morrer na terra do que viver na cidade.
No fim da noite, o casal toma alguns minutos para avaliar a situação. “Enquanto os meninos estão aqui, eles estão quietos. Mas depois vai descarregar em dobro em cima da gente. Enquanto não prender, não muda. Mas também não adianta esse negócio de prender e soltar ali adiante”, diz Raimundo.
Ele para por alguns segundos e reconsidera. “Acho que a gente vai ter que ir embora mesmo. Eu não tenho medo de morrer, mas não quero morrer de graça. Também não sei que bem tem morrer para viver na história, que nem o Dinho, o Gedeão, o Chico Mendes. Eu penso que a gente tem que viver vivo”.

domingo, 4 de março de 2012

INSTITUTO NACIONAL DE FORMAÇÃO CAMPONÊS ADELINO RAMOS (INFCAR)


EM DEFESA DA JUSTIÇA, EM DEFESA DAS LUTAS SOCIAIS, E EM DEFESA DA REFORMA AGRÁRIA.


Baseado nos princípios de Adelino Ramos é que foi criado o INSTITUTO NACIONAL DE FORMAÇÃO CAMPONÊS ADELINO RAMOS (INFCAR), fundado em 27 de Julho de 2011 e constituído em 28 de Janeiro de 2012, é uma Organização de Sociedade Civil de Interesse Público – OSCIP, com personalidade jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, e duração por tempo indeterminado, tendo como sede inicial o município de Osasco.

Este Instituto tem como finalidade dar continuidade a luta pela causa, atribuída a Adelino Ramos, conforme estabelecido em seu Parágrafo Único, que indica:

Parágrafo Único: exercerá suas atividades com base no seu Estatuto, na declaração Universal dos Direitos do Homem, na Lei 9.790/99 e demais legislações pertinentes, tendo como missão: “defender a cultura e identidade amazônicas, promovendo a integração entre o homem e a natureza e contribuir para a promoção humana através do desenvolvimento justo, solidário, democrático e participativo”, aprovado em resolução da Assembleia Geral.

Apesar de consideramos que Reforma Agrária deve ser um compromisso do governo Brasileiro, sabemos que sem a união dos Movimentos Sociais ela não ocorrerá de acordo com anseios da Classe Trabalhadora, principalmente dos Trabalhadores Rurais, pois infelizmente uma parte deste governo esta de mãos atadas a este Sistema Capitalista.

Além da Reforma Agrária e preocupação com o meio ambiente, deveremos estar atentos e participar nas lutas que reivindicam uma verdadeira Reforma Social, que passa por:
-  Educação e um Sistema de Saúde, Público, de Qualidade e Gratuito;
-  Reforma Urbana, para que todos os trabalhadores(as), tenham direito a uma moradia digna, contra a exploração acerbada da especulação Imobiliária;
-  Distribuição de Renda mais justa para a Classe Trabalhadora;
-  Entre outras, de interesse social.

Por isto consideramos que só com a união de todos os envolvidos nestas lutas é que ocorrerá a verdadeira transformação social que o nosso país necessita, e por este mesmo motivo o Instituto deverá permanecer apartidário, e inspirado nos ideais de Adelino Ramos, atuaremos pelas causas deste povo que tanto é massacrado.



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sábado, 3 de março de 2012

MST: mulheres ocupam fazenda da Suzano Papel e Celulose na Bahia - Portal Vermelho


Mais de 1.100 mulheres camponesas participaram da ocupação


01/03/2012 - Da Página do MST















Mais de 1.100 mulheres camponesas de acampamentos e assentamentos do MST no Sul da Bahia ocuparam a fazenda Esperança, localizada no município de Alcobaça, de propriedade da empresa paulista Suzano Papel Celulose, na manhã desta quinta-feira (1/3).


A ocupação, que faz parte da jornada de lutas das mulheres camponesas, organizada pela Via Campesina Brasil em torno do dia internacional de luta das mulheres, o 8 de março, cobra do Instituto Nacional da Colonização e Reforma Agrária (Incra) agilidade nos processos de desapropriação dos latifúndios das grandes áreas do monocultivo de eucalipto.


O Grupo Suzano, que atua em diversos segmentos econômicos, controla 771 mil hectares, dos quais 326 mil de monocultura de eucalipto, concentrados na Bahia, no Espírito Santo, em São Paulo, em Minas Gerais, no Maranhão, no Tocantins e no Piauí.


Esse modelo de produção amplia o desmatamento da Mata Atlântica, descumprindo as determinações do Código Florestal vigente, que obriga a preservação da Reserva Legal e das Áreas de Preservação Permanente, as APPs.


Dessa forma, as 23 mil famílias Sem Terra acampadas na Bahia poderiam ser assentadas, uma vez que as papeleiras não cumprem a função social da terra, como determina a Constituição.


Além disso, as mulheres camponesas denunciam que o Estado brasileiro prioriza o modelo do agronegócio, fazendo por meio de bancos públicos repasses para as empresas privadas do eucalipto e exigem investimentos do governo estadual e federal nos assentamentos da região.


Com essa ocupação, as mulheres denunciam com a ação o descaso social e ambiental que as empresas monocultoras de eucalipto praticam na região, aumentando a pobreza e desigualdade social com a expulsão das famílias do campo.


O êxodo rural provoca o inchaço dos grandes centros urbanos, onde a população não tem os direitos sociais garantidos e são vítimas do aumento da violência. A região Sul da Bahia é considerada uma das mais violentas do país.


Essa é a 2ª ocupação de mulheres trabalhadoras rurais em uma área de eucalipto na região Extremo Sul da Bahia. A primeira aconteceu no dia 28 de março de 2011, no município de Eunápolis, na fazenda Nova América, de propriedade da Veracel.


A Veracel é um oligopólio transnacional criado com a parceria de duas empresas líderes no setor de celulose e papel, a brasileira Fibria e a sueco-finlandesa Stora Enso.


A empresa controla 119.000 hectares de terra nos municípios de Eunápolis, Canavieiras, Belmonte, Guaratinga, Itabela, Itagimirim, Itapebi, Mascote, Porto Seguro e Santa Cruz Cabrália.No ano passado, foram ocupadas diversas áreas dessa empresa e os trabalhadores rurais pressionam para transformá-las em assentamentos. (Fotos: MST-BA)


Fontes: 
MST: mulheres ocupam fazenda da Suzano Papel e Celulose na Bahia - Portal Vermelho


http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=176883&id_secao=8




Mulheres camponesas ocupam fazenda da Suzano Papel e Celulose no Sul da Bahia | Brasil de Fato 
http://www.brasildefato.com.br/node/8927


Do original em:
Mulheres camponesas ocupam fazenda da Suzano Papel e Celulose no Sul da Bahia | MST - Movimento dos Trabalhadores Sem Terra
http://www.mst.org.br/Mulheres-camponesas-ocupam-fazenda-da-Suzano-Papel-e-Celulose-no-sul-da-Bahia


Postado por Claudio Roberto Angelotti Bastos